| Dr. Vicente Abdelmassih *
Introdução
Uma das únicas complicações da Fertilização
In Vitro (FIV), a gestação múltipla, pode ser evitada
atualmente com a transferência mais tardia para o útero dos
embriões fecundados em laboratório. Isto significa transferir
os embriões em estágio de blastocistos, deixando-os mais
tempo em laboratório para obter uma seleção embrionária
melhor e, portanto, transferir menos embriões para a paciente de
modo a evitar o risco dela ter mais de um embrião realmente implantado.
O blastocisto é um embrião em estágio avançado
de desenvolvimento. No processo natural de gravidez e concepção,
o embrião se implanta na parede do útero em estágio
de blastocisto. Então, se temos um embrião em laboratório
neste estágio, ele tem um grande potencial de implantação.
Ambiente Favorável
Entretanto, hoje sabemos que a transferência de embriões
para o útero neste estágio é um processo totalmente
cego. Quando chegam à cavidade uterina neste estágio, os
embriões encontram um ambiente desfavorável, pois nesta
fase eles naturalmente se encontram nas trompas. Além disso, a
motilidade uterina é inversamente proporcional à progesterona
circulante, propiciando maior contratilidade da musculatura uterina nesta
fase, pelo fato de a progesterona estar em níveis baixos no sangue.
Ao contrário do que acontece em animais, o fato de se transferir
embriões em estágios mais precoces de desenvolvimento para
o útero humano parece não comprometer o seu potencial de
crescimento, mantendo-se as taxas de gravidez satisfatórias.
A preferência de transferir embriões com 4 a 8 células,
ao invés de blastocistos - que já têm mais de 16 células
e encontram-se em um estágio adiantado de desenvolvimento - está
relacionada ao receio e à insegurança em relação
aos efeitos da cultura prolongada. Se a cultura não se encontra
em ótimas condições, poderá haver o comprometimento
da viabilidade dos embriões, com diminuição das chances
de sucesso do tratamento.
Por outro lado, a cultura prolongada nos fornece uma certa seletividade
embrionária, ou seja, podemos obter um número maior de embriões
com parada do crescimento e, mesmo, com desenvolvimento anormal (altas
taxas de fragmentação), determinando, de forma mais precisa,
quais os melhores embriões, ou seja, os que estão mais aptos
à implantação.
Fisiologia Favorável
Outro ponto positivo da cultura prolongada é uma melhor sincronização
com o ciclo menstrual natural, transferindo-se os embriões em um
momento mais próximo das condições fisiológicas
ideais para a implantação no endométrio. Portanto,
o blastocisto é mais compatível com a cavidade uterina e
com a chamada "janela de implantação", que acontece
em torno do 5° ao 6° dia pós-ovulação.
O objetivo da FIV com a cultura dos embriões até blastocistos
é selecionar os embriões de melhor qualidade, aqueles com
o melhor potencial de desenvolvimento e, portanto, com maiores chances
de implantação. Progressos consideráveis têm
acontecido desde os estudos iniciais de cultura de embriões. Na
década de 70 alguns autores publicaram trabalhos sobre o desenvolvimento
de meios de cultura mais complexos, tomando por base a composição
química das secreções do trato genital feminino (Tervit,
1972, e Menezo, 1976).
Apesar do empenho e das constantes pesquisas de vários cientistas
no aperfeiçoamento desses meios, os resultados de desenvolvimento
embrionário, em cultura, eram frustrantes, ocorrendo, quase sempre,
um retardo no crescimento in vitro da maioria desses embriões.
A formação in vitro de blastocistos passou a ser um indicador
de qualidade e desenvolvimento embrionário, o último possível
controle do embrião antes da transferência.
Menor taxa de gestação múltipla
Teoricamente seria desejável que todas as pacientes alcançassem
o estágio de blastocisto, o que por si só evitaria a gestação
múltipla. O problema é que apenas 40% dos embriões
chegam a blastocisto no laboratório, em condições
in vitro. Se tivermos de dois a três blastocistos disponíveis,
eles são transferidos porque resultam em número suficiente
para a obtenção da gravidez. O estágio de blastocisto
é obtido no quinto dia no laboratório, após a aspiração
dos óvulos. O melhor estágio de um embrião no terceiro
dia é chegar a oito células.
A FIV tenta simular o ambiente do organismo materno quando ocorre, nas
trompas, a união do espermatozóide com o óvulo. Buscamos
mimetizar, no laboratório, as mesmas condições do
organismo, mas não é um processo simplificado. Utilizamos
estufas, incubadoras com temperatura controlada, pressão de CO2
controlada, de modo a tentar reproduzir ao máximo o organismo materno.
Conseguimos manter em boas condições um embrião até
o terceiro dia de cultura no laboratório. Neste período,
obtemos ótimos resultados de cultura - embriões com até
60% de possibilidade de formar oito células no terceiro dia. Estender
essa cultura para além de dois dias implica diminuir o potencial
desse embrião, que começa a se desenvolver mais lentamente.
É por essa razão básica que escasseiam os embriões
chegando a blastocistos. Se tivermos que optar, numa paciente que não
tenha tantos embriões, por transferir no terceiro dia ou correr
o risco e estender o prazo de cultura em dois dias, preferimos transferir
no terceiro dia porque esses embriões terão melhor chance
de chegar no organismo ao estágio de blastocistos.
O médico que trabalha com reprodução assistida gostaria
de transferir o menor número de embriões com as mesmas chances
de gravidez da paciente. O que se obteria: as mesmas condições
de gravidez, mesmas taxas de sucesso e o risco de gestação
múltipla cada vez menor em conseqüência da transferência
de um número cada vez menor de embriões.
Quanto menos embriões são transferidos, menos gestação
múltipla haverá. Numa paciente que transferiu quatro embriões
e noutra que transferiu três, a chance desta vir a desenvolver gêmeos
e trigêmeos é muito maior, e uma terceira que transferiu
dois blastocistos terá chance ainda menor de ter gêmeos.
O fato de um em cada grupo de dois se desenvolver é uma incógnita
relacionada à falta de conhecimento sobre todas as etapas relacionadas
ao mecanismo de implantação. Quando as respostas forem integralmente
obtidas, será necessário transferir apenas um blastocisto
para se obter a gestação em 100% das tentativas. Como se
joga com a probabilidade de gravidez, temos que transferir mais embriões
para que pelo menos um deles possa se fixar à parede do útero
e a gestação ter continuidade.
A incidência de gestação múltipla na FIV gira
em torno de 25% - na população em geral, a gestação
gemelar situa-se na faixa de 1%. O objetivo, hoje, na reprodução
assistida, é reduzir a taxa de gestação múltipla,
oferecendo uma gestação que atenda às expectativas
da paciente. Gestação gemelar contém em si um risco
maior de prematuridade, custo maior do berçário e de acompanhamento
neonatal, além da possibilidade de complicações no
parto, embora hoje transcorra com muito mais tranqüilidade que no
passado. No entanto, os riscos aumentados de perda, prematuridade e internação
prolongada estão atualmente mais associados à trigemelaridade.
É importante destacar, porém, que uma paciente nessas condições
gravídicas terá um risco maior de desenvolver alterações
da vascularização, com repercussões sistêmicas,
independentemente dessa gravidez ter sido ou não obtida por meio
da Fertilização In Vitro.
Clínica e Centro de Pesquisa em Reprodução Humana Roger Abdelmassih
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