|
Em torno de 10 a 15% de todas as gestações evoluem para abortamento. Portanto, uma única perda gestacional não é motivo de preocupação. Entretanto, após a ocorrência de dois abortamentos consecutivos, há maior probabilidade de haver algum fator que esteja prejudicando a evolução normal da gravidez. Cerca de 1% das mulheres apresentam perda gestacional de repetição e devem procurar auxílio médico especializado.
Mais de 90% das alterações cromossômicas resultam em abortamento, as quais representam também a causa mais freqüente de abortamentos repetidos. Quando os abortamentos ocorrem após a décima semana, geralmente não são causados por anormalidades cromossômicas. Entretanto, quando o embrião apresenta alguma alteração cromossômica, a gestação se interrompe quase sempre antes da décima semana. Deve-se, sempre que possível, realizar o estudo cromossômico do concepto, pois a ausência de alteração cromossômica indica a existência de um outro tipo de fator.
O casal deve ser sempre investigado com relação à presença de alterações cromossômicas, através da realização do cariótipo com bandagem G. Quando há alguma alteração, deve-se realizar o aconselhamento genético, com intuito de orientar a escolha do tratamento. Nesses casos, os tratamentos disponíveis são a utilização de gametas doados (em substituição ao gameta do cônjuge portador da alteração) ou o diagnóstico genético pré-implantacional (PGD). Para realização do PGD, o casal deve submeter-se a um ciclo de fertilização in vitro. Após três dias de cultivo em laboratório, uma única célula é retirada de cada embrião produzido e encaminhada para análise cromossômica, com intuito de selecionar os embriões que não apresentam alteração nos cromossomos analisados e reduzir a incidência de abortamento.
As anormalidades uterinas também podem causar perdas gestacionais repetidas, geralmente representadas por abortamentos mais tardios ou partos prematuros. As mais freqüentes são as anomalias congênitas, os septos uterinos, a incompetência istmo-cervical e alguns tipos de miomas. Os septos devem ser sempre tratados através de cirurgia histeroscópica. As demais situações devem ser analisadas caso a caso.
Pacientes com Síndrome dos Ovários Policísticos, hiperprolactinemia, alterações tireoidianas e diabetes também podem apresentar abortamentos repetidos e devem receber tratamento pré-concepcional.
As trombofilias congênitas e a Síndrome Antifosfolípede também são causas freqüentes e devem ser sempre pesquisadas. O tratamento com drogas anticoagulantes apresenta bons resultados.
Causas imunológicas também podem ser identificadas. Entretanto, nenhuma das diversas terapias propostas (imunização com células paternas ou de doador, infusão de membrana trofoblástica, imunoglobulina, etc.) ainda se demonstrou eficaz.
Abortamentos de repetição de causa inexplicável representam 40% dos casos. Grande parte é representada por fatores genéticos não diagnosticados. A realização do PGD reduz a incidência de abortamento nesses casos, enquanto que a prescrição de tratamentos empíricos não se encontra indicada.
O fato de conseguir engravidar, mas não ser capaz de levar uma gravidez a termo, gera uma situação bastante angustiante. Muitas vezes o casal passa a evitar a gravidez, com medo de passar pela mesma situação novamente. O primeiro passo é superar o trauma emocional decorrente das perdas sucessivas, para que o desejo de engravidar retorne e o casal possa colaborar durante o tratamento.
|